terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A era dos tablets

Pelo menos três escolas particulares do DF inauguram o uso dos equipamentos na sala de aula. Educadores, pais e especialistas revelam preocupação quanto ao aprendizado 
Manoela Alcântara
Correio Braziliense, 06/02/2012 - Brasília DF 

No lugar de lápis, papel e livros, computadores sensíveis ao toque. Após conquistar os jovens do mundo todo com as inúmeras possibilidades de aplicativos, jogos e interatividade, os tablets começam a invadir as salas de aula das escolas particulares do Distrito Federal. A ferramenta possibilita aos alunos buscarem informações em diversas fontes, ter acesso ao conteúdo explicativo por meio de vídeos e músicas, além de levar a modernidade do conteúdo virtual. Porém, a introdução do instrumento no processo de aprendizado de crianças e adolescentes na capital ainda é tratado com cautela por pais e educadores. As dúvidas referem-se a segurança, eficácia do sistema e dispersão que as ferramentas como a internet podem provocar dentro das instituições de ensino (veja arte). Uma semana após o início das aulas nas unidades privadas de ensino, pelo menos três colégios apresentaram alternativas para inserir a nova tecnologia na realidade de estudantes do 1º ano do ensino médio. Sigma, Marista e Leonardo da Vinci usam maneiras diversas para que a inovação integre o ensino. Com um investimento alto em criação de aplicativos, instalação de redes sem fio e a capacitação de professores, um ponto é indiscutível: os estudantes se mostraram empolgados com a novidade. 

O Correio acompanhou a primeira aula com tablet no Sigma. No local, os livros impressos das 16 matérias foram substituídos por material digital, criado especificamente para o aparelho. Em mesas de tamanho diferenciado, o tablet e o caderno compunham todo o cenário de ensino para a disciplina de espanhol. Olhos atentos à professora e ao novo equipamento. Os adolescentes ouviam o que a educadora falava e logo perguntavam: “Em que página?”, “Como acho esse vídeo?” Em 50 minutos, os estudantes tiveram contato com a língua estrangeira, conheceram músicas no idioma e ainda tiveram a oportunidade de interagir com outra cultura. Enquanto ouviam melodias, pesquisavam sobre os países que têm a língua como idioma oficial. Com mais alguns cliques, entenderam um pouco mais sobre a história e a geografia de nações que falam espanhol. Tudo isso por meio de um aplicativo desenvolvido pela professora da instituição. O livro virtual contém links, com informações adicionais em determinados pontos do texto.
Na parte de gramática, por exemplo, é possível clicar no local indicado e ter acesso a questões usadas no Programa de Avaliação Seriada (PAS), no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou no vestibular. “Começamos a primeira etapa do processo em 2010, quando observamos experiências de outros países com o equipamento. Decidimos, então, fazer um projeto pedagógico próprio, voltado para a necessidade de vestibular da região. Cada professor produziu o material interativo para as matérias, contratamos uma empresa de informática e ela topou o desafio”, explicou o coordenador da área de física do Sigma, André Frattezi. No início do ano, os pais levaram um susto ao perceber que o tablet e o conjunto de aplicativos faziam parte da lista de material escolar. O aparelho custa entre R$ 1 mil e R$ 2 mil, e os livros virtuais para estudo ao longo do ano, R$ 1,1 mil. O desafio começou com 1,2 mil alunos do 1º ano e aumentará paulatinamente, com expansão no ano que vem para os do 2º período. Os links informativos são parte integrante do sistema e muitos não precisam de internet para revelar as informações adicionais. Porém, a escola dispõe de rede sem fio, o que não impede os alunos de entrarem na rede. 
Receio - A Associação de Pais de Alunos das Instituições de Ensino do DF, que representa 2 mil pais em Brasília, considera a iniciativa interessante, mas preocupa-se com a dispersão dos estudantes, que têm entre 14 e 16 anos. “A internet na sala de aula é algo que nos deixa apreensivos. É uma responsabilidade a mais para esses adolescentes justamente em uma época decisiva da vida deles, em que não estão maduros ainda. O sucesso dependerá da capacidade da escola e dos responsáveis para controlar isso”, disse o presidente da instituição, Luis Claudio Megiorin. “É uma tecnologia nova e isso sempre nos trás dúvidas, mas acreditamos que o conteúdo interativo, planejado de forma correta, pode melhorar o aprendizado.” Keille Vacerman, 38 anos, tem um filho de 14. O garoto começará a utilizar a nova tecnologia. Ela acha a ideia interessante, mas confessa que, se o colégio não tivesse exigido na lista de materiais, a compra do tablet para o adolescente não seria feita tão cedo. “Não estava nos meus planos. A meninada adora, mas a gente não deixa de se preocupar. Será que esse conteúdo vai funcionar? Eles vão aprender? E a segurança, como fica? Tenho muitas dúvidas.” Outro ponto levantado pela mãe é quanto à fiscalização no acesso de sites fora do conteúdo da sala de aula. O medo é que os estudantes entrem em redes sociais e outros portais e não prestem a atenção no conteúdo. “Conversei com a escola e eles disseram que vão aumentar a fiscalização. Também educo em casa e acredito que os professores estarão atentos”, disse. O especialista na área de tecnologias da educação na UnB Gilberto Lacerda acredita que a ferramenta é inerente à evolução, um encontro marcado entre as escolas e a tecnologia, mas o risco de dispersão existe. “A pertinência das aulas será o diferencial para reter a atenção do aluno. A conscientização e o acompanhamento dos pais também é importante nesse e em todos os outros processos”, disse. Para ele, se houver capacitação dos professores, aliada a boa infraestrutura, os resultados surgirão com rapidez. Rafael Assis, Mikhaela Hanae, ambos de 14 anos, e Pedro Henrique Lima Cardoso, 15, admitem a possibilidade de dispersão, mas garantem que o voto de confiança dado a eles não será desperdiçado. “Acho, sim, que vai ter gente na internet, sempre tem uma exceção. A responsabilidade de garantir um futuro promissor agora é nossa. Achei o aplicativo claro, vai ficar mais fácil e interessante aprender”, afirmou Mikhaela. Pedro Henrique também comemora a mochila mais leve. “Na minha antiga escola, tinha que carregar oito livros e o caderno de 12 matérias. Agora, está bem melhor.” Empolgado com a novidade, o rapaz acredita que o professor fará a diferença na hora de prender a atenção dos alunos. “O educador é o maestro. É ele que vai dizer o ritmo da orquestra. Com aulas interessantes, com certeza ficaremos concentrados.” 

Segurança - Se o ambiente virtual abre discussões, a segurança é uma preocupação constante para os pais. Eles temem que os filhos sejam visados por bandidos por terem na mochila um equipamento caro. A dúvida é plausível, segundo o tenente-coronel Eduardo Leite Sousa, comandante do Batalhão Escolar. Ele acredita que, em um primeiro momento, o material pode chamar a atenção. “Podemos comparar com a época em que os celulares começaram a fazer sucesso. Quem tinha o aparelho era mais visado, mas em um ou dois anos, a preocupação diminuirá.” Para evitar imprevistos, quem tem o tablet não deve ostentar o material fora da escola. O indicado é sair da sala, colocá-lo na mochila e não tirar até chegar em casa. “Temos hoje 500 policiais para fiscalizar 1.080 escolas, não podemos estar em todas. Por isso, os alunos devem andar por locais claros, só mexer nos aparelhos dentro das salas ou em casa, andar em grupos e não reagir a assaltos”, orientou. Uma outra dica para que não haja prejuízo é fazer um seguro do aparelho. As próprias escolas e as empresas que vendem o tablet oferecem propostas atrativas, que custam em média R$ 150 reais.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Um apartheid silencioso

Folha de São Paulo, 02/02/2012 - São Paulo SP 
Escolas estatais sofrem com lentidão, corporativismo e falta de meritocracia; o ProUni é um exemplo: poderíamos ter acesso universal às escolas privadas 
Fernando Luís Schüler

A última edição do Pisa, avaliação realizada em 65 países com alunos de 15 anos, pela OCDE, apresenta um dado perturbador. Os nossos alunos das escolas privadas tiveram nota média de 502, semelhante à nota dos estudantes dos EUA. Os nossos alunos das redes estaduais e municipais de ensino alcançaram uma média de 387, semelhante à da Albânia. Os dados do Enem mostram o mesmo quadro. Das mil escolas mais bem posicionadas (contando apenas as escolas que tiveram mais de 75% de participação dos estudantes), 92% eram particulares. O fato é que estamos alimentando, no Brasil, uma espécie de apartheid educacional entre os jovens de classe média e alta, cujas famílias há muito "privatizaram" a educação de seus filhos, e os estudantes de famílias mais pobres, que são levados a estudar nas redes estaduais e municipais de ensino, com seus problemas crônicos de gestão. 

É uma situação paradoxal: o sistema público de educação, que deveria assegurar uma base de oportunidades igual para todos, é ele mesmo uma máquina geradora de profundas desigualdades sociais. Alguns dirão que não é possível debitar os resultados pífios da educação pública às deficiências estruturais do sistema. Pesaria a condição das famílias para apoiar os filhos em suas atividades fora das salas de aula. É um argumento que pode tranquilizar o nosso sono, mas é inaceitável. Caberia ao Estado exatamente criar as condições para compensar essas assimetrias sociais. Recursos não faltam para isso. Nosso sistema estatal é caro e ineficiente. Escolas estatais são repartições públicas. Não têm autonomia para tomar decisões com a racionalidade e a rapidez que a educação requer no dia a dia -como atualizar laboratórios, bibliotecas e fazer obras de infraestrutura. 

Elas sofrem com a burocracia, com o corporativismo e com a visão antimeritocrática comum no serviço público brasileiro. É fácil constatar esse quadro e dizer que tudo poderia ser diferente. Mas não é o que a experiência demonstra. Penso que chegou a hora de apostar em uma mudança de paradigma no Brasil. Uma mudança estrutural de longo prazo: repensar a relação entre o Estado e a sociedade brasileira no que se refere à educação. Em vez de continuarmos tentando o que se tentou no século 20 -ou seja, nivelar o acesso à educação pela oferta do ensino estatal-, podemos buscar soluções efetivamente possíveis no século 21: assegurar o acesso de todos ao ensino não estatal -composto por escolas com ou sem fins lucrativos, desde que elas tenham qualidade, uma gestão ética e uma relação positiva entre custo e benefício. O Brasil tem apresentado inovações importantes nessa direção. Basta observar o ProUni e o Fies. O Estado financia (via abatimento fiscal para as instituições ou via juros subsidiados para os estudantes) a matrícula dos alunos nas instituições particulares. É, grosso modo, o que, há décadas, propunha-se no país sob o conceito de "voucher" para a educação. 

Em vez de criar e administrar repartições públicas de ensino, o Estado utiliza a capacidade disponível das redes privadas, deixa que as famílias escolham onde querem estudar e concentra a sua ação na criação de indicadores e na exigência de qualidade. Fica a pergunta: por que esse não se torna o padrão de atuação dos governos na educação também no ensino médio e fundamental? Por que continuar abrindo repartições públicas educacionais e continuar (como os indicadores mostram) aumentando o fosso social brasileiro? Não seria melhor apostar em modelos transparentes de parceria entre Estado e sociedade, com o financiamento direto aos estudantes, deixando que eles escolham onde estudar? Alguém já comparou a relação entre custo e benefício dessas duas alternativas? O Brasil fez muitas revoluções nas duas últimas décadas. Precisamos agora de mais uma. Uma revolução para que exista igualdade de oportunidades, que vai começar quando tivermos alguma coragem para revisar velhos conceitos. FERNANDO LUÍS SCHÜLER, 46, doutor em filosofia e mestre em ciências políticas pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), é diretor acadêmico do Ibmec-RJ.

Instituto da UFRJ é o único brasileiro em ranking mundial de MBA do 'FT'

Portal G1, 31/01/2012 
Mestrado da Coppead está em 51º lugar na lista do 'Financial Times'. Salário de ex-alunos cresce 151% de salário após 3 anos, segundo estudo. 

Do G1, em São Paulo


O MBA do Coppead, Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é o único representante brasileiro na lista dos cem melhores programas de mestrado do mundo publicada pelo “Financial Times”. O MBA da Coppead aparece na 51ª posição no ranking geral e em sexto lugar no índice que mede a evolução da média salarial dos alunos três anos após se formarem, com um aumento de 151%. O curso da MBA “full time” do Coppead figura no ranking desde 2001, mas não esteve presente na lista do ano passado. Na última aparição, em 2010, figurava em 65º lugar. O ranking tem em primeiro lugar a escola de negócios da Universidade de Stanford, seguido por Harvard, Universidade da Pensilvânia, London Business School e Columbia Business School. A média de salário dos estudantes do Coppead é de US$ 110 mil por ano. Em Stanford, a média é de US$ 192 mil, e para os que fizeram MBA em Harvard, US$ 156 mil. 
Com dedicação em tempo integral e dois anos e meio de duração, o MBA do Coppead tem em sua maioria estudantes da área de engenharia, mas também conta com alunos vindos de cursos de administração e economia, entre outros. Em seu site, a Coppead sugere sólida formação acadêmica, maturidade, experiência profissional e de pesquisa e domínio das línguas portuguesa e inglesa como fatores que favorecem a admissão de um candidato. O curso é totalmente gratuito. Tem recursos públicos destinados à UFRJ além de participação de recursos de instituições parceiras como empresas e cátedras. “Somos uma escola pública, devemos ser a única entre as escolas listadas que não cobra mensalidade para o seu mestrado”, destaca Ricardo Leal, professor titular da UFRJ e professor de finanças da Coppead. Segundo o ranking, 40% dos estudantes da Coppead são mulheres e 16% são estrangeiros. Além disso, todo o corpo docente tem doutorado. São oferecidas de 50 a 55 vagas por ano. No edital de 2012, já com inscrições encerradas, são 52 vagas disponíveis. Para entrar no programa é preciso prestar um concurso público de seleção com provas de português, inglês e matemática. A experiência profissional do candidato também é levada em conta. Os estudantes fazem 18 meses de créditos em aula e mais 12 meses como preparação de sua dissertação de mestrado. Também é possível participar de intercâmbio com universidades internacionais.

O lugar do engenheiro de software no mercado

O Tempo, 02/02/2012 - Belo Horizonte MG 
GEORGE LEAL JAMIL / Doutor em ciência da informação; professor (Ietec)

É difícil passar um dia sem ler: "faltam pessoas capacitadas". O país passa por uma fase de crescimento em vários setores e começa a encarar a falta de recursos humanos preparados para assumir posições estratégicas. O desenvolvimento de software chama a atenção. Em duas áreas importantes de sua aplicação, foram notificados eventos muito semelhantes: "em virtude da falta de pessoas", haverá problemas no atendimento e no crescimento da demanda. Torna-se importante chamar a atenção para oengenheiro de software. Há quem diga que ele é desnecessário, que as habilidades não se relacionam às técnicas modernas. Há aqui dois equívocos graves.formação básica. Ter fundamentações teóricas antigas não indica obsolescência, pois sua função como gestor tecnológico é básica. Com isso, tal formação é necessária, pois não é coerente se afirmar "moderno" sem ter uma base de conhecimento. O segundo é a pressão do mercado. 

O engenheiro de software é um profissional de presença crítica. Ele tem condições de montar e manter o processo com conhecimento para não produzir soluções aplicáveis apenas a um contexto momentâneo. Assim sendo, a formação que buscamos é a de um profissional que entenda o desenvolvimento tecnológico, adicionando à competência de gerenciar um processo crítico. Sua formação contempla, portanto, o amplo domínio técnico, somado às capacidades que o levarão a compreender todos os cenários de aplicação do software.

Professor deve ser capacitado para a nova maneira de dar aula

Folha de São Paulo, 01/02/2012 - São Paulo SP
SÉRGIO AMARAL ESPECIAL PARA A FOLHA

A aula tradicional está cada vez mais mediatizada pelas tecnologias digitais. Começamos com a introdução do computador, passamos pela lousa digital, até chegarmos aos tablets. Para os professores, a introdução dos tablets em sala de aula deverá trazer uma grande mudança na maneira de dar aula, de apresentar e de discutir o conteúdo com seus estudantes. O problema não é com os alunos, mas com os professores. Precisamos capacitar os docentes para a utilização didática dos tablets no desenvolvimento das atividades pedagógicas em sala de aula. O professor necessita de uma mudança na maneira de ensinar, precisa de uma adaptação do material didático. É fundamental desenvolver atividades em sala de aula com conteúdos que efetivamente utilizem os recursos tecnológicos dos tablets. 


O tablet é pequeno, apresenta certa dificuldade de realizar anotações e outros problemas se compararmos com o livro didático. Mas apresenta recursos com a convergência multimidiática e a conexão com a internet que facilitam a busca e a integração de conteúdo, contribuindo com o processo de aprendizagem. Para tanto, é necessário que a capacitação dos professores não seja somente instrumental, mas contextualizada na potencialidade e na limitação da tecnologia. Deve incluir como são as novas formas de interagir, a linguagem e a construção de conteúdo e como incorporá-las nos processos de ensino e de aprendizagem. Só assim, de fato, estará justificado o uso de tablets em sala de aula, como efetivo instrumento do aprender.


Projeto de Lei prevê ‘residência’ para profissionais recém-formados

O Globo, 31/01/2012 - Rio de Janeiro RJ 
Iniciativa ainda precisa passar por três comissões da casa antes de ser aprovada 

O Globo, com informações da Agência Câmara


BRASÍLIA - O Projeto de Lei 2814/11, em tramitação na Câmara dos Deputados, promete provocar polêmica: ele prevê um programa de formação profissional em nível de pós-graduação para os recém-formados, semelhante às residências médicas. O autor, deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), acredita que necessidades idênticas às da Medicina devem ser satisfeitas nas demais áreas profissionais. O objetivo é complementar a formação profissional por meio do aprendizado no mercado de trabalho. O programa seria destinado a recém-graduados que participariam de cursos sob a responsabilidade de instituições previamente credenciadas, responsáveis também pelo processo seletivo. Os participantes teriam direito a bolsa correspondente a prevista para médicos residentes em regime especial de treinamento (com 60 horas semanais). Além disso, os profissionais teriam direito também a previdência social e licenças paternidade e maternidade, uma folga mensal e 30 dias consecutivos de descanso por ano. Ao fim do curso, os alunos receberão títulos de especialistas. O projeto ainda passará pelas comissões de Trabalho, Administração e Serviço Público; Educação e Cultura; e de Constituições, Justiça e Cidadania.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Faculdades pagou, passou

Estado de Minas, 31/01/2012 - Belo Horizonte MG 
José Eloy dos Santos Cardoso - Economista, professor e jornalista

O artigo do professor Reginaldo Gonçalves publicado no Estado de Minas sob o titulo ‘Faculdades em xeque’ (Opinião, 29/1/2011) retrata muito bem os tempos de hoje, em que, para aumentar o número de diplomados, são criadas entidades de ensino superior sem nenhuma condição de funcionar. Que o digam os exames da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em seus testes para conceder uma carteira de advogado a quem completou o curso de direito. Fui professor universitário por mais de 30 anos e posso dizer, de cadeira, como estão sendo formadas pessoas sem nenhuma condição de exercer uma profissão. 

A Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) recebeu os antigos cursos da Faculdade Municipal de Ciências Econômicas (Famce) em 1969, quando era apenas Universidade Católica de Minas Gerais, (hoje, Pontifícia). Ao receber da Prefeitura de Belo Horizonte os cursos oferecidos pela antiga Famce e também todos os seus professores, funcionários, livros e outros ativos, ela logo buscou aprimorar a formação de contadores, economistas e administradores, que hoje são orgulho de Minas Gerais e do Brasil. Há nesses cursos da PUCMinas atualmente um modelo de formação de profissionais não só nessas áreas, mas em todas as que são oferecidas por essa universidade, modelo brasileiro de entidade particular de ensino. Ela vem mostrando isso a todo o país. A PUC mineira forma profissionais que nossa nação espera e conta com professores de nível superior de qualidade compatível com as melhores universidades brasileiras e até estrangeiras. O professor Reginaldo Gonçalves tem toda a razão de reclamar dos níveis de profissionais formados de qualquer maneira por várias outras faculdades pelo Brasil afora.

O problema é que as facilidades de fundação e funcionamento, largamente difundidas e facilitadas pelo governo federal, não condizem com as necessidades de o Brasil alcançar excelentes níveis de desenvolvimento. O problema não é exclusivo dos cursos de economia, administração, ciências contábeis ou direito. Diz respeito a vários outros ramos profissionais cujos bacharéis com diploma não empatam com suas capacidades de exercer uma profissão. A simples condição de ter professores pós-graduados ou com mestrado não significa que esses profissionais estão em condições de exercer a nobre carreira de professor em qualquer área. Ultimamente, tem sido até fácil fazer uma especialização ou mestrado. É dever de cada empresa que contratá-los verificar se, na prática, eles têm condições de assumir o trabalho de mestres, mesmo que possuam condições jurídicas para tal.

É uma missão difícil para as empresas ou consultorias de head hunters. Hoje, não está nada fácil essa missão. Uma prova disso é que as empresas brasileiras estão contratando aos montes os estrangeiros aptos a ocupar os lugares que os profissionais brasileiros não estão podendo ou não têm as mínimas condições de contribuir para o desenvolvimento e o crescimento do Brasil e que o mundo inteiro está exigindo.

O Ministério da Educação (MEC), como órgão que fiscaliza e regula as instituições de ensino, é o responsável pelo diagnóstico da situação operacional e financeira de cada faculdade, universidade, inclusive pelo atendimento das diretrizes instituídas formalmente pelas leis brasileiras. A simples busca pela lucratividade dessas ditas faculdades, é apenas um problema a mais a ser resolvido. É claro que quem coloca o capital de risco precisa se assegurar de que ele dará algum retorno para evitar os futuros choques de gestão. A grande preocupação brasileira é permitir, em nome da situação econômica e financeira de cada organismo de ensino, o exercício do magistério por professores inaptos para a função dos autênticos mestres que existiram no passado. Os sindicatos de professores não têm condições técnicas ou administrativas para entrar nesse perigoso e incerto imbróglio. Caberia ao MEC fazer isso. Se ele não tem condições para essa tarefa, coitado do Brasil que esperamos no futuro. O mercado de capitais que almeja só lucros para seus acionistas é uma coisa. Fabricar lucros em detrimento do Brasil e dos brasileiros é outra. Cumpre a todos fiscalizar isso não deixando que nossos filhos e netos frequentem as chamadas faculdades do tipo pagou, passou. Seremos fatalmente punidos por mais essa irresponsabilidade.